A Avenida Paulista é um palco legítimo para quem quer se manifestar. Lá se reuniram, ao longo dos anos, pessoas de todas as cores políticas. Esse direito é sagrado. O que não é sagrado é o que vem depois, quando a ideia vira pedra, spray e vidro quebrado.
O que aconteceu no domingo
No domingo, 11 de outubro, a campanha de Lula realizou um grande ato na Paulista, com a presença do candidato. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, durante a dispersão dos manifestantes, foram registradas ocorrências de tumulto, pichações e depredação em pontos da região.
O alvo principal foi o metrô, que é patrimônio de todos, inclusive de quem não foi ao ato. Segundo a CNN Brasil, manifestantes picharam e depredaram acessos às estações Consolação e Trianon-Masp, e relatos da PM apontam que portas e grades da Consolação foram quebradas. Vídeos gravados da redação da CNN, que fica na própria Paulista, mostram pessoas em cima da cobertura de vidro de uma das entradas da Trianon-Masp, algumas com o rosto coberto. Vídeos nas redes também mostram lixo espalhado pela avenida depois do evento. Entre as pichações circulou a frase “Viva a Revolução”, embora sem confirmação de autoria ou data.
Há um detalhe que merece atenção. No domingo à noite, o Metrô disse não ter registros de vandalismo ou danos nas estações da Paulista. No dia seguinte, a versão mudou: o Metrô divulgou imagens dos estragos em estações da Linha 2-Verde, como Trianon-Masp e Consolação, com placas de vidro das coberturas danificadas e pichações em paredes internas, corrimãos e até dentro de um trem. A Polícia Civil vai analisar as imagens do sistema Muralha Paulista e das câmeras do Metrô para identificar os responsáveis.
Manifestação e vandalismo não são a mesma coisa
Manifestar é levantar um cartaz. Vandalizar é arrancar a grade de uma estação que o trabalhador usa na segunda-feira às seis da manhã.
Quem picha “revolução” num bem público não está debatendo ideias: está dizendo que as regras valem para os outros.
É justo registrar: as ocorrências aconteceram na dispersão, e não há indicação de que a organização do ato tenha incentivado a depredação. Quem quebrou não fala por todos que estavam lá. Justamente por isso, a condenação deveria vir rápida, e sem rodeio, de quem organizou.
Não é a primeira vez
O episódio de domingo não surge do nada. Em 2006, militantes do MLST invadiram a Câmara dos Deputados e destruíram parte das instalações. No mesmo ano, mulheres da Via Campesina destruíram anos de pesquisa científica num laboratório da Aracruz, no Rio Grande do Sul. Em maio de 2017, um protesto contra as reformas do governo Temer terminou com ministérios depredados e incendiados na Esplanada. As invasões de terra e de prédios públicos foram, por décadas, tratadas por parte da esquerda como “ferramenta de luta”. O método muda de endereço, mas a lógica é a mesma: quando o fim é considerado nobre, o patrimônio alheio vira detalhe.
Alguém vai lembrar do 8 de janeiro. Deve lembrar mesmo. Ali houve destruição grave, e a resposta do Estado foi dura, com centenas de condenados. A pergunta honesta é: a régua que foi usada naquele dia será usada agora? Quem quebrou o metrô será identificado, julgado e punido com o mesmo rigor? Se a resposta for não, o problema não é só o vandalismo. É a dupla medida.
E o eleitor indeciso?
No dia 25, o Brasil escolhe entre Lula e Flávio Bolsonaro. Ninguém precisa decidir o voto por causa de uma pichação. Mas vale observar como cada lado reage quando os seus apoiadores passam do limite. Houve condenação clara por parte da campanha de Lula? Houve pedido para que os responsáveis fossem identificados? O silêncio também é uma resposta.
Até o fechamento desta coluna, nesta segunda-feira (12), as reportagens sobre o caso não registravam nota da campanha condenando a depredação. A reação mais visível do lado governista foi a do ministro Guilherme Boulos, que contestou um vídeo usado pelo governador Tarcísio de Freitas para criticar o ato.
Ordem, respeito ao que é público e a mesma lei para todos são valores que deveriam unir o país. Antes de apertar o botão na urna, o indeciso pode se perguntar com sinceridade: qual dos dois projetos defende esses valores de forma mais coerente?
Eu tenho a minha resposta. A sua, só você pode dar.
Na urna, quem decide é você
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Fim da Palhaçada: o eleitor falou, o mercado ouviu Tiririca não se elegeu. Caneta Azul também não. E a Bolsa teve a maior alta pós-eleição desde 2002. Um bilhão para o dique: o que muda e o que ainda não muda O dinheiro foi garantido. A primeira máquina entra no terreno em 2027.Fontes. Secretaria da Segurança Pública e Polícia Militar de São Paulo, em nota e relatos reproduzidos por O Tempo/Estadão Conteúdo (11/10). Poder360: imagens dos acessos ao metrô depredados, com vídeos gravados pela CNN Brasil (11/10). Metrópoles: Metrô divulga imagens de vandalismo nas estações (12/10). TMC: estações do Metrô vandalizadas após o ato (12/10). Poder360: Tarcísio critica vandalismo em ato pró-Lula; Boulos rebate imagem (12/10). Histórico: invasão da Câmara dos Deputados pelo MLST (junho de 2006); destruição do laboratório da Aracruz em Barra do Ribeiro (RS) pela Via Campesina (março de 2006); protesto na Esplanada dos Ministérios (24 de maio de 2017); atos de 8 de janeiro de 2023 e julgamentos no STF. Ilustração de abertura produzida pela Rede Bolha com inteligência artificial; as figuras são caricaturas e ilustram a opinião do autor, não registram cena ocorrida.
Aviso. Este texto é um artigo de opinião e expressa a visão do autor. As informações factuais seguem as fontes citadas acima e serão atualizadas se surgirem dados novos, como a identificação dos responsáveis ou uma nota oficial das campanhas.