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Economia · Eldorado do Sul

Um bilhão para o dique: o que muda e o que ainda não muda

O dinheiro foi garantido nesta sexta. A primeira máquina entra no terreno em 2027

R$ 700 milhões da União e cerca de R$ 300 milhões do Estado destravam o edital do sistema de proteção contra cheias: 8,6 quilômetros de diques de 7,6 metros e quatro casas de bombas. A obra leva de três a quatro anos depois de começar. O Jacuí, esse, não consulta cronograma.

Por Adm. Romário Cruz · Jornalista MTb 0021682/RS · 11 de setembro de 2026
Vista aérea de Eldorado do Sul em maio de 2024: casas de um bairro ainda cercadas pela água barrenta em primeiro plano e, ao fundo, a avenida e o comércio da cidade em terreno seco.
Eldorado do Sul em maio de 2024: a água ainda no pátio das casas e, do outro lado da via, a cidade seguindo. É essa cena que o dique promete não deixar repetir. Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil.

Você sabe qual é o som que a gente aprendeu a temer aqui em Eldorado?

Não é o da chuva. É o do telefone tocando de madrugada.

Eu moro nesta cidade. Em maio de 2024 a água tomou praticamente tudo. O Mapa Único do Plano Rio Grande, o levantamento oficial do governo do Estado, registrou 80,8% dos domicílios atingidos e 31.964 moradores impactados — numa cidade de 39.556 habitantes. A prefeitura estimou 97% da área urbana debaixo d'água.

Traduzindo: de cada dez casas de Eldorado do Sul, oito tomaram água. E oito em cada dez moradores viram a própria vida molhada. Eu vi vizinho sair com uma sacola na mão e trinta anos ficando para trás.

Nesta sexta-feira, 11 de setembro, numa sala reservada da base aérea de Canoas, aconteceu a coisa mais burocrática do mundo: gente de terno assinou papel. E essa coisa burocrática é, provavelmente, a melhor notícia que esta cidade recebeu desde que a água baixou.

O que foi assinado, em português de gente

O governo federal confirmou R$ 700 milhões do Firece — Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos, um nome comprido para um caixa de R$ 6,5 bilhões criado depois da enchente. O governo do Estado entra com cerca de R$ 300 milhões do Funrigs, o Fundo do Plano Rio Grande, criado pela Lei 16.134, de maio de 2024.

Somando, algo em torno de R$ 1,03 bilhão.

Com o dinheiro garantido, sai o edital para contratar de uma vez só o projeto executivo e a obra. Estavam na reunião o presidente Lula, o governador Eduardo Leite e os prefeitos Sebastião Melo, de Porto Alegre, Airton Souza, de Canoas, e Juliana Carvalho, daqui.

O que o dinheiro compra
8,6 km
De diques com 7,6 metros de altura, mais quatro casas de bombas, quatro bacias de amortecimento e um sistema novo de drenagem interna. É o projeto que substitui a cidade sem proteção nenhuma que a água encontrou em 2024.

Por que a conta dobrou

Aqui entra a parte que eu, como administrador, não consigo deixar passar batido.

O projeto original custava R$ 531 milhões. A versão atualizada, apresentada em abril, foi para R$ 1,1 bilhão. Dobrou.

E dobrou por um motivo que, se você parar para pensar, é até tranquilizador: o projeto ficou maior. O dique subiu de altura, o número de casas de bombas foi de duas para quatro, entrou drenagem interna que não existia. Em vez de construir para a cheia que já veio, estão construindo para a que pode vir pior.

Quem viveu 2024 sabe por que isso importa. Dique que protege até a marca do ano passado é dique que vai ser notícia de novo.

Mas registre também a outra ponta da conta: o anúncio é de cerca de R$ 1,03 bilhão e a estimativa atualizada da obra está em torno de R$ 1,1 bilhão. São números de momentos diferentes, e a diferença pode ser só arredondamento ou escopo contado de outro jeito. Ainda assim, é o tipo de vão que vale acompanhar quando o edital sair.

A briga que quase travou tudo

Não foi um acordo de mãos dadas.

A União resistia a bancar o projeto inteiro. O Estado, pelo relato das reportagens do dia, aceitou entrar com a sua parte meio a contragosto — o governador Eduardo Leite queria empregar aquele dinheiro do Funrigs em outras demandas apresentadas por prefeitos, e usa como comparação a transposição do Rio São Francisco, que atravessou governos sem que se cobrasse contrapartida dos Estados.

Do outro lado da mesa, Lula cobrou o governador pela demora na liberação de recursos da reconstrução. A reunião teve clima tenso, e isso saiu em mais de um veículo.

Eu vou ser franco: para quem mora aqui, essa discussão é ruído. Ela pode ser legítima, pode ter razão dos dois lados, e ainda assim não muda o fato de que a água não aparece no orçamento de ninguém pedindo licença. Se a briga tivesse durado mais um ano, quem pagaria a conta não seria nem Brasília nem o Piratini.

Dinheiro público demora. Rio, não. Essa assimetria é a história inteira da nossa cidade nos últimos dois anos.

O calendário, que é a parte que dói

Agora a notícia que não estava no anúncio, e que você precisa ouvir de alguém que mora na mesma rua que você.

A previsão do governo estadual é que a obra comece em 2027. E que leve de três a quatro anos para ficar pronta.

Faça a conta comigo. Se tudo correr no prazo — edital sem impugnação, licença ambiental sem novela, empreiteira sem problema, nenhuma surpresa de fundação —, a cidade fica protegida por volta de 2030 ou 2031.

São mais quatro ou cinco invernos.

Linha do tempo do sistema de proteção contra cheias de Eldorado do Sul: enchente em maio de 2024, anteprojeto refeito em abril de 2026, dinheiro garantido em setembro de 2026, obra prevista para 2027 e conclusão entre 2030 e 2031.
Dois anos e quatro meses separam a enchente do anúncio do dinheiro. Outros quatro ou cinco separam o anúncio da cidade protegida. Gráfico: Rede Bolha, com dados do governo do Estado e da prefeitura de Eldorado do Sul.

Não estou dizendo isso para azedar a notícia. O dinheiro garantido é conquista de verdade, e quem trabalhou por ele merece o crédito. Estou dizendo porque no dia do anúncio todo mundo fala do bilhão, e ninguém fala do calendário. E é o calendário que a gente vai viver.

O que um dique faz com a economia de uma cidade

Esta é a editoria de Economia, então vamos ao ponto que quase não se discute: dique não é só concreto. É preço.

Pensa na sua casa. Quanto ela vale hoje, num município que o Brasil inteiro viu debaixo d'água no telejornal? E quanto ela valeria num município com 8,6 quilômetros de proteção construída e testada?

A diferença entre esses dois números é o patrimônio de milhares de famílias daqui. Não é riqueza nova que aparece do nada — é risco que sai da conta. E risco, em economia, tem preço: aparece no valor do imóvel, no seguro que a seguradora aceita ou recusa fazer, no crédito que o banco libera ou não para quem quer reformar, no galpão que a empresa decide montar aqui ou em outro lugar.

Tem também o que não volta sozinho. Muita gente foi embora em 2024 e não voltou. Comércio que fechou e não reabriu. Quem fica olhando de fora, pensando em investir, não pergunta quanto custou a enchente passada — pergunta qual a chance da próxima.

Um dique responde essa pergunta. Um anúncio de dique, ainda não.

O que dá para fazer enquanto a obra não vem

Aqui eu abaixo a voz.

Quatro ou cinco anos é tempo demais para ficar só esperando. E tem coisa que não depende de edital nenhum.

Documento importante guardado em lugar alto e digitalizado. Um plano de saída combinado com a família — para onde, com quem, em quanto tempo. Reserva de emergência, que é o assunto que eu já cansei de escrever aqui e que em 2024 separou quem se levantou rápido de quem demorou anos. Nada disso impede a água. Só encurta o tempo que você leva para ficar de pé de novo.

E, com licença para a parte chata do administrador: acompanhe o edital. Obra pública de um bilhão tem prazo, tem aditivo, tem cronograma físico-financeiro público. Cidade que cobra o andamento recebe obra mais rápido do que cidade que aplaude o anúncio e vai dormir.

Eu vou acompanhar por aqui. Cada etapa, com número e fonte.

Em 2024 eu vi esta cidade sumir de baixo da água. Nesta sexta eu vi o papel ser assinado. Entre uma coisa e outra passaram dois anos e quatro meses — e ainda faltam quatro ou cinco.

Você vai estar aqui quando esse dique ficar pronto?

Recomeçar é coisa de homem, e ninguém ensina como

Perder tudo e levantar de novo mexe com o bolso e com a identidade. Homem, Você Não É Ridículo são 25 capítulos sobre o que a gente carrega calado — escrito de homem para homem, sem sermão e sem condescendência.

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Fontes. Reunião de 11/09/2026 na base aérea de Canoas, com o presidente da República, o governador do Rio Grande do Sul e os prefeitos de Porto Alegre, Canoas e Eldorado do Sul, conforme noticiário do dia (Jornal do Comércio, Agora no Vale, abc+, Agência GBC e Poder360). Valores do Firece e do Funrigs e destravamento do edital, conforme o mesmo noticiário. Dimensões do sistema — 8,6 km de diques, 7,6 metros de altura, quatro casas de bombas e quatro bacias de amortecimento — e a revisão de custo de R$ 531 milhões para cerca de R$ 1,1 bilhão, conforme apresentação do anteprojeto atualizado pelo governo do Estado. Previsão de início da obra em 2027 e duração de três a quatro anos, conforme o governo estadual. Dados da enchente de maio de 2024 — 80,8% dos domicílios atingidos e 31.964 moradores impactados — conforme o Mapa Único do Plano Rio Grande (MUP), levantamento do governo do Rio Grande do Sul, publicado por O Globo em 31/05/2024. A estimativa de 97% da área urbana submersa é da prefeitura de Eldorado do Sul, divulgada à época e reproduzida por Sul21, Agência Brasil e Poder360. População de 39.556 habitantes, Censo 2022 do IBGE. Funrigs instituído pela Lei estadual 16.134, de 24 de maio de 2024. Fotografia de abertura de Rafa Neddermeyer / Agência Brasil, publicada em maio de 2024 e reproduzida sob a licença Creative Commons de atribuição adotada pela agência.

Aviso. Este texto tem finalidade jornalística e educacional e reúne informações públicas disponíveis até a data de publicação. Prazos e valores de obra pública mudam; confira o andamento nos canais oficiais da prefeitura de Eldorado do Sul e do governo do Estado. O conteúdo não constitui recomendação de investimento nem orientação jurídica.