Você votou rindo ou votou pensando?
Lembra de 2010? Eu lembro.
Um palhaço apareceu na TV com uma peruca loira e um bordão que virou piada nacional: “Pior que tá, não fica”. O Brasil riu. E, rindo, mandou o Tiririca para Brasília com mais de 1,3 milhão de votos. Foi o deputado mais votado do país.
Dezesseis anos depois, a piada perdeu a graça.
No domingo, 4 de outubro, passei a noite grudado na apuração. Virginiano que sou, ainda conferi os números duas vezes. Na segunda-feira de manhã, quando abri o home broker, quem não acreditou foi o meu café: a Bolsa brasileira tinha resolvido dar uma festa.
São duas notícias diferentes. Mas as duas têm o mesmo pano de fundo: um eleitor mais atento. Vamos por partes.
O eleitor parou de achar graça
Tiririca tentou o quinto mandato. Desta vez pelo PSD, no Ceará, a terra natal dele. Fez 5.523 votos e ficou de fora.
Olha o tamanho da queda. Em 2010 foram 1.353.820 votos, o que enche uns dezessete Maracanãs. Em 2026, os votos dele cabem num ginásio de cidade do interior.
E ele não caiu sozinho. Manoel Gomes, o cantor do “Caneta Azul”, disputou uma vaga de deputado federal por São Paulo pelo Avante. Fez 7.239 votos e também ficou de fora. Datena, com toda a sua audiência, ficou na casa dos 51 mil votos e terminou como suplente.
Nas redes, um cearense resumiu o espírito da coisa: por lá, o povo pesquisa antes de votar.
Quero deixar uma coisa bem clara, tchê. Nada contra o Tiririca nem contra o Manoel Gomes. Palhaço é profissão honrada, e fazer o Brasil rir é um baita serviço. O problema nunca foi o artista no palco. Era o eleitor achando que a urna é auditório de programa de domingo.
Esse eleitor, pelo jeito, cresceu.
A segunda-feira em que a Bolsa soltou foguete
Agora a parte que mexe no bolso.
O primeiro turno terminou com o senador Flávio Bolsonaro (PL) na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente Lula (PT). Os dois voltam às urnas no dia 25 de outubro.
Na segunda-feira, dia 5, o mercado respondeu assim:
| Indicador | O que aconteceu |
|---|---|
| Ibovespa | Subiu 7,70% e fechou em 206.911 pontos. Passou dos 200 mil pela primeira vez na história |
| Máxima do dia | 209.605 pontos |
| Dólar | Caiu 4,12%, para R$ 5,00. Maior queda diária em oito anos |
| Volume negociado | R$ 103,3 bilhões, volume de dia histórico |
| Investidor estrangeiro | Trouxe R$ 10,06 bilhões para a Bolsa num só dia. Recorde |
Desde 2002, nenhum primeiro pregão depois do primeiro turno tinha subido tanto. O recorde anterior era de 2022, com 5,54%.
E esses R$ 10 bilhões do estrangeiro? Dinheiro de fora não tem pátria nem paixão. Ele é que nem visita desconfiada: só tira o casaco quando se sente em casa. Na segunda-feira, tirou o casaco e ainda pediu outro chimarrão.
Segundo os analistas, a leitura do mercado foi uma só: a expectativa de um governo mais disposto a enfrentar o desequilíbrio das contas públicas e abrir espaço para juros menores. O juro futuro despencou junto. E juro menor é a gasolina da Bolsa.
Mas vale o registro honesto: a expectativa ainda é só expectativa. O próprio candidato ainda não apresentou um plano detalhado para o rombo fiscal.
A confiança aumentou? Aumentou. Mas devagar com o andor
Os sinais de confiança são fortes. Gente de fora colocou dinheiro recorde aqui. O dólar caiu. A Bolsa bateu recorde. Quando o investidor gringo e os grandes fundos correm para o mesmo lado, isso não é boato de corredor. É convicção com dinheiro na mesa.
Só que eu sou administrador, e administrador desconfia de festa que começa cedo demais.
Na terça-feira, dia 6, o Ibovespa caiu 0,52%. Na quarta, dia 7, caiu mais 0,74% e fechou em 204.302 pontos. Foi a famosa realização de lucros: quem comprou barato antes da eleição aproveitou para vender um pedaço nos dias seguintes. Normal. Ninguém sobe escada correndo sem parar para respirar.
Tem mais. O petróleo passou dos US$ 100 e o Banco Central americano sinalizou que ainda pode apertar os juros. Isso pesa aqui também. E o próprio levantamento que comparou as eleições desde 2002 avisa: um único pregão também reflete fatores externos, então não dá para jogar toda a alta só na conta da urna.
Sendo bem honesto com você: a confiança subiu, sim. Mas confiança de mercado é que nem crédito na bodega do bairro.
O segundo turno ainda não aconteceu. As pesquisas vão mexer com o dólar, com os juros e com as ações até o dia 25.
O recado que vale para todo mundo
Agora deixa eu baixar o tom, porque a parte séria vem aqui.
O mercado não vota. Quem vota é você. A Bolsa só reage ao que o eleitor decide. E o que esta semana mostrou é simples: quando o povo leva o voto a sério, o país passa a ser levado a sério também.
Isso não é papo de engravatado da Faria Lima. Dólar mais baixo segura o preço do pão, do remédio e do combustível. Juro menor barateia o crediário da geladeira e o financiamento da casa. Confiança vira emprego. Eu vi aqui em Eldorado do Sul, depois da enchente, o quanto a confiança faz falta quando a gente precisa reconstruir.
O palhaço volta para o picadeiro, que é o lugar dele e onde ele faz bem o que faz. E a política volta, aos poucos, a ser coisa de gente grande.
Ainda falta o segundo turno. Mas a pergunta que eu deixo vale para qualquer lado do muro:
No dia 25, você vai votar rindo ou vai votar pensando?
Votar também é decidir
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Aviso. Este texto é uma opinião e não é recomendação de investimento. Tem finalidade jornalística e educacional, não constitui análise ou consultoria de investimento e não indica ativos, produtos ou instituições financeiras. Para orientação sobre onde investir, procure um profissional autorizado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).