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Notícias Rede Bolha · Opinião

Promessa é dívida

O que Lula prometeu, o que não entregou e o que volta a prometer

Conferi o plano de governo de 2022 contra o que foi entregue. Duas promessas dependiam só da caneta do presidente. Três voltam requentadas em 2026. Antes do dia 25, a pergunta é uma só: as promessas novas merecem o mesmo crédito que as antigas receberam?

Por Adm. Romário Cruz · Jornalista MTb 0021682/RS · 15 de outubro de 2026
Ilustração editorial. No centro, caricatura de Lula atrás de uma pilha de papéis carimbada “Não entregue”, com etiquetas: mandato único, sigilo de 100 anos, segurança pública, orçamento secreto, apps, SUS (ainda não acabou) e internet nas escolas. À esquerda, a prancheta “O que foi prometido em 2022”. À direita, o quadro verde “O que foi entregue”: reforma tributária, isenção do IR até R$ 5 mil, Mais Médicos, Minha Casa, Minha Vida, Farmácia Popular e Brasil fora do Mapa da Fome, com a frase “Entrega é importante. Mas não dá desconto para o que ficou no caminho”. Ao lado, o quadro azul “As novas promessas de 2026”: segurança pública (R$ 10 bilhões), previdência para motoristas e entregadores de aplicativo, mais regulação das redes sociais, manter a valorização do salário mínimo e fim da escala 6×1, com a nota “Três dessas promessas são cópias das de 2022 que não foram cumpridas”. Embaixo, uma urna eletrônica com a data 25 de outubro e um eleitor com a bandeira do Brasil: “E você, vai renovar o crédito?”.
Promessa é dívida. E dívida, a gente cobra antes de emprestar de novo. Ilustração: Rede Bolha, produzida com inteligência artificial. A figura é uma caricatura e ilustra a opinião do autor; não registra cena ocorrida.

Você emprestaria dinheiro de novo para quem não pagou metade da última dívida?

Pois é. Aqui em casa, a Silvana tem uma regra simples: quem promete e não cumpre, da próxima vez traz por escrito. Virginiano que sou, eu fui além. Peguei o plano de governo de 2022 do presidente Lula, os levantamentos da imprensa e fiz o que todo administrador faz: conferi o prometido contra o entregue.

O segundo turno é dia 25 de outubro. Até lá, a pergunta que vale um mandato é uma só: as promessas novas merecem o mesmo crédito que as antigas receberam?

O placar depende de quem segura a caneta

Tem dois boletins circulando por aí, e eles não batem.

g1 · até 30/6/2026
26 de 36

promessas cumpridas. Mais 4 pela metade e 6 não cumpridas.

Folha · metade do mandato
28%

de 103 promessas cumpridas, tiradas do programa, da propaganda, da carta de compromissos e das entrevistas.

O primeiro é do g1. O projeto Promessas dos Políticos acompanhou 36 compromissos de 2022. Até 30 de junho de 2026, contou 26 cumpridos, 4 pela metade e 6 não cumpridos. É esse número que a militância governista transformou em “80% de entrega”.

O segundo é da Folha de S.Paulo. O jornal listou 103 promessas. Na metade do mandato, Lula tinha cumprido só 28% delas.

Vale o registro honesto: o número da Folha é de janeiro de 2025, e o do g1 vai até junho de 2026. Parte da diferença é o tempo. Mas a outra parte é o tamanho da lista. É como avaliar um pedreiro só pelas paredes que ele escolheu mostrar. Quem escolhe a lista escolhe a nota. E repare num detalhe que ninguém comenta: mesmo no recorte mais generoso, o do g1, sobram promessas importantes no chão.

A conta que ficou pendurada

Vamos ao caderninho. Estas são as promessas de 2022 que o próprio levantamento do g1 aponta como não cumpridas ou cumpridas só pela metade:

Promessas de 2022 que ficaram no caminho
Promessa de 2022O que aconteceuDependia de quem?
Fazer um mandato sóQuebrada. Lula é candidato ao quarto mandato.Só dele
Acabar com o sigilo de 100 anosA CGU liberou parte dos registros de Bolsonaro, mas o governo passou a impor sigilo em documentos próprios, da agenda da primeira-dama a comunicações diplomáticas.Só dele
Recriar o Ministério da Segurança PúblicaNão saiu. O governo amarrou o ministério à PEC da Segurança, que ficou parada no Senado até esta semana.Governo e Congresso
Acabar com o orçamento secretoO STF proibiu o mecanismo, mas a verba pouco transparente seguiu pelas emendas de comissão.Governo e Congresso
Regulamentar o trabalho por aplicativoNem chegou a ser votada.Governo e Congresso
Zerar as filas do SUSCumprida em parte. Foram 14,9 milhões de cirurgias eletivas em 2025, mas a fila não acabou.Governo
Internet em todas as escolas públicasCumprida em parte. Em abril de 2026, 72,9% das escolas tinham conexão adequada (eram 45,4% no início do governo). Falta mais de um quarto.Governo

Agora olha a última coluna com calma, de chimarrão na mão.

As duas promessas mais simbólicas dependiam de uma única caneta: a do presidente. Não havia Senado para culpar, nem Centrão, nem oposição. Bastava cumprir a palavra. Não cumpriu.

E a do sigilo dói mais. Não só a promessa ficou no papel. O governo passou a fazer exatamente aquilo que prometeu acabar. É como o vizinho que reclamava do seu cachorro latindo e agora tem dois.

O que foi entregue, porque honestidade não tem partido

Eu não vou fazer com você o que critico nos outros. Tem entrega no boletim, e das grandes.

O governo aprovou a reforma tributária, com imposto zerado nos alimentos da cesta básica e em parte dos medicamentos. Aprovou a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Retomou o Mais Médicos e o Minha Casa, Minha Vida, e ampliou o Farmácia Popular. O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome, segundo a ONU.

Quem nega isso perde a razão no resto da conversa. Mas repare:

Entregar uma parte não dá desconto na outra.

Ninguém paga a metade do aluguel e diz ao dono do imóvel que o resto está “em andamento”.

A promessa requentada

Sabe a comida de ontem que volta para a mesa com outro nome? Pois foi o que eu encontrei comparando o plano de 2022 com o de 2026.

2022, o mandato e 2026, tema por tema
TemaPrometido em 2022Resultado no mandatoPrometido agora em 2026
Segurança públicaMinistério da SegurançaNão saiuIntegração com estados e municípios, combate financeiro às facções e R$ 10 bilhões em equipamentos
AplicativosRegulamentar o trabalhoNem foi votadoA mesma promessa, agora com foco na previdência de motoristas e entregadores
Redes sociaisRegular as plataformasNão avançouA mesma promessa: ampliar a regulação
Salário mínimoValorização realRetomada, mas travada em até 2,5% pelo arcabouço fiscalManter a valorização
Jornada de trabalhoNova legislação trabalhistaFim da 6×1 aprovado no Senado em 14 de outubro, a 11 dias do segundo turnoFim da 6×1 e 40 horas sem corte de salário

Duas coisas saltam aos olhos.

Primeiro: três das promessas de 2026 são cópia das de 2022 que não foram cumpridas. Se quatro anos com a caneta na mão não bastaram, o que muda nos próximos quatro?

Segundo: o calendário. A PEC do fim da 6×1 é de 2019, de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). No balanço do g1, fechado em junho, a nova legislação trabalhista ainda estava na lista das promessas não cumpridas. A proposta ficou cerca de cinco meses parada no Senado e foi aprovada por 75 votos a 1 justamente na reta final da campanha. No mesmo dia, a PEC da Segurança foi aprovada na CCJ do Senado. Coincidência eleitoral é um fenômeno curioso: só acontece em ano de eleição.

Para ser justo, a aprovação da 6×1 teve voto de quase todo o Senado, inclusive da oposição, e o texto aprovado é o substitutivo do deputado Leo Prates (Republicanos-BA). O mérito é do Congresso inteiro, não de um só candidato.

Então, dá para confiar?

Agora eu abaixo a voz, porque o assunto é sério.

Eu vivi a enchente de 2024 aqui em Eldorado do Sul. Vi muita gente prometer muita coisa naqueles dias. E aprendi uma lição que nenhum livro de administração me ensinou tão bem:

Promessa se mede depois da água baixar.

Quem cumpriu, a gente lembra. Quem só falou, a gente também lembra.

Na minha opinião, a confiança num candidato não se mede pelo tamanho da promessa. Mede-se por três perguntas simples:

  1. O que dependia só dele, ele cumpriu? Aqui, a resposta é não. O mandato único e o fim do sigilo estavam nas mãos do presidente.
  2. As promessas novas são repetição das velhas? Em pelo menos três temas, sim.
  3. As entregas vieram no tempo certo ou no tempo da urna? Algumas das mais vistosas chegaram justamente agora.

Por isso, a minha posição é clara: as novas promessas merecem desconfiança proporcional às antigas que ficaram no caminho. Não é ódio, não é torcida. É contabilidade básica. Quem atrasou o pagamento passado não ganha crédito novo só porque prometeu com mais força.

O que dizem os defensores do governo

Todo bom debate ouve o outro lado, e eu faço questão.

Os apoiadores de Lula argumentam que várias pendências travaram no Congresso, e não no Planalto. Lembram que o governo enfrentou um Legislativo majoritariamente de oposição. E apontam que, pelo recorte do g1, mais de 70% dos compromissos foram cumpridos integralmente, um índice alto para qualquer governo.

É um argumento legítimo, e você deve pesar. Mas ele não explica as promessas que não dependiam de Congresso nenhum. E essa é justamente a parte da conta que eu não consigo fechar.

Para levar para casa

No dia 25, ninguém vai votar num plano de governo. Vai votar numa pessoa. E a melhor previsão do que uma pessoa vai fazer ainda é o que ela já fez.

Promessa é dívida. E dívida, a gente cobra antes de emprestar de novo.

E você, vai renovar o crédito?

Decidir também é cobrar

Escolher bem é olhar para o que já foi feito, e não só para o que se promete. O Poder da Decisão fala de escolhas conscientes e alinhadas a valores, sem embalo e sem pressa.

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Fontes. Balanço do projeto Promessas dos Políticos, do g1, com corte em 30/6/2026, reproduzido por Em Dia ES (22/7/2026) e Revista Coité: 26 de 36 promessas cumpridas, 4 parcialmente e 6 não cumpridas; entregas do governo. Vermelho: a leitura de “ao menos 80%” (4/8/2026). Levantamento da Folha de S.Paulo, reproduzido pela Gazeta do Povo: 28% de 103 promessas na metade do mandato (19/1/2025). Gazeta do Povo: promessas não cumpridas, mandato único e sigilo da agenda da primeira-dama (17/2/2026). Gazeta do Povo: sigilo em telegramas do Itamaraty. Pleno News: plano de governo de Lula para 2026. Agência Brasil: propostas de Lula e Flávio para a segurança pública, incluindo os R$ 10 bilhões do FIIS (9/10/2026). TV Senado: aprovação do fim da 6×1 por 75 votos a 1, em dois turnos (14/10/2026). Brasil de Fato: autoria e tramitação da PEC 221/2019 (14/10/2026). Gazeta da Amazônia: PEC da Segurança aprovada na CCJ do Senado (14/10/2026). Ilustração de abertura produzida pela Rede Bolha com inteligência artificial; a figura é uma caricatura e ilustra a opinião do autor, não registra cena ocorrida.

Aviso. Este texto é um artigo de opinião e expressa a visão do autor, que declara ser presidente do Republicanos em Eldorado do Sul. As informações factuais seguem as fontes citadas acima e serão atualizadas se surgirem dados novos.