Você emprestaria dinheiro de novo para quem não pagou metade da última dívida?
Pois é. Aqui em casa, a Silvana tem uma regra simples: quem promete e não cumpre, da próxima vez traz por escrito. Virginiano que sou, eu fui além. Peguei o plano de governo de 2022 do presidente Lula, os levantamentos da imprensa e fiz o que todo administrador faz: conferi o prometido contra o entregue.
O segundo turno é dia 25 de outubro. Até lá, a pergunta que vale um mandato é uma só: as promessas novas merecem o mesmo crédito que as antigas receberam?
O placar depende de quem segura a caneta
Tem dois boletins circulando por aí, e eles não batem.
promessas cumpridas. Mais 4 pela metade e 6 não cumpridas.
de 103 promessas cumpridas, tiradas do programa, da propaganda, da carta de compromissos e das entrevistas.
O primeiro é do g1. O projeto Promessas dos Políticos acompanhou 36 compromissos de 2022. Até 30 de junho de 2026, contou 26 cumpridos, 4 pela metade e 6 não cumpridos. É esse número que a militância governista transformou em “80% de entrega”.
O segundo é da Folha de S.Paulo. O jornal listou 103 promessas. Na metade do mandato, Lula tinha cumprido só 28% delas.
Vale o registro honesto: o número da Folha é de janeiro de 2025, e o do g1 vai até junho de 2026. Parte da diferença é o tempo. Mas a outra parte é o tamanho da lista. É como avaliar um pedreiro só pelas paredes que ele escolheu mostrar. Quem escolhe a lista escolhe a nota. E repare num detalhe que ninguém comenta: mesmo no recorte mais generoso, o do g1, sobram promessas importantes no chão.
A conta que ficou pendurada
Vamos ao caderninho. Estas são as promessas de 2022 que o próprio levantamento do g1 aponta como não cumpridas ou cumpridas só pela metade:
| Promessa de 2022 | O que aconteceu | Dependia de quem? |
|---|---|---|
| Fazer um mandato só | Quebrada. Lula é candidato ao quarto mandato. | Só dele |
| Acabar com o sigilo de 100 anos | A CGU liberou parte dos registros de Bolsonaro, mas o governo passou a impor sigilo em documentos próprios, da agenda da primeira-dama a comunicações diplomáticas. | Só dele |
| Recriar o Ministério da Segurança Pública | Não saiu. O governo amarrou o ministério à PEC da Segurança, que ficou parada no Senado até esta semana. | Governo e Congresso |
| Acabar com o orçamento secreto | O STF proibiu o mecanismo, mas a verba pouco transparente seguiu pelas emendas de comissão. | Governo e Congresso |
| Regulamentar o trabalho por aplicativo | Nem chegou a ser votada. | Governo e Congresso |
| Zerar as filas do SUS | Cumprida em parte. Foram 14,9 milhões de cirurgias eletivas em 2025, mas a fila não acabou. | Governo |
| Internet em todas as escolas públicas | Cumprida em parte. Em abril de 2026, 72,9% das escolas tinham conexão adequada (eram 45,4% no início do governo). Falta mais de um quarto. | Governo |
Agora olha a última coluna com calma, de chimarrão na mão.
As duas promessas mais simbólicas dependiam de uma única caneta: a do presidente. Não havia Senado para culpar, nem Centrão, nem oposição. Bastava cumprir a palavra. Não cumpriu.
E a do sigilo dói mais. Não só a promessa ficou no papel. O governo passou a fazer exatamente aquilo que prometeu acabar. É como o vizinho que reclamava do seu cachorro latindo e agora tem dois.
O que foi entregue, porque honestidade não tem partido
Eu não vou fazer com você o que critico nos outros. Tem entrega no boletim, e das grandes.
O governo aprovou a reforma tributária, com imposto zerado nos alimentos da cesta básica e em parte dos medicamentos. Aprovou a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Retomou o Mais Médicos e o Minha Casa, Minha Vida, e ampliou o Farmácia Popular. O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome, segundo a ONU.
Quem nega isso perde a razão no resto da conversa. Mas repare:
Ninguém paga a metade do aluguel e diz ao dono do imóvel que o resto está “em andamento”.
A promessa requentada
Sabe a comida de ontem que volta para a mesa com outro nome? Pois foi o que eu encontrei comparando o plano de 2022 com o de 2026.
| Tema | Prometido em 2022 | Resultado no mandato | Prometido agora em 2026 |
|---|---|---|---|
| Segurança pública | Ministério da Segurança | Não saiu | Integração com estados e municípios, combate financeiro às facções e R$ 10 bilhões em equipamentos |
| Aplicativos | Regulamentar o trabalho | Nem foi votado | A mesma promessa, agora com foco na previdência de motoristas e entregadores |
| Redes sociais | Regular as plataformas | Não avançou | A mesma promessa: ampliar a regulação |
| Salário mínimo | Valorização real | Retomada, mas travada em até 2,5% pelo arcabouço fiscal | Manter a valorização |
| Jornada de trabalho | Nova legislação trabalhista | Fim da 6×1 aprovado no Senado em 14 de outubro, a 11 dias do segundo turno | Fim da 6×1 e 40 horas sem corte de salário |
Duas coisas saltam aos olhos.
Primeiro: três das promessas de 2026 são cópia das de 2022 que não foram cumpridas. Se quatro anos com a caneta na mão não bastaram, o que muda nos próximos quatro?
Segundo: o calendário. A PEC do fim da 6×1 é de 2019, de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). No balanço do g1, fechado em junho, a nova legislação trabalhista ainda estava na lista das promessas não cumpridas. A proposta ficou cerca de cinco meses parada no Senado e foi aprovada por 75 votos a 1 justamente na reta final da campanha. No mesmo dia, a PEC da Segurança foi aprovada na CCJ do Senado. Coincidência eleitoral é um fenômeno curioso: só acontece em ano de eleição.
Para ser justo, a aprovação da 6×1 teve voto de quase todo o Senado, inclusive da oposição, e o texto aprovado é o substitutivo do deputado Leo Prates (Republicanos-BA). O mérito é do Congresso inteiro, não de um só candidato.
Então, dá para confiar?
Agora eu abaixo a voz, porque o assunto é sério.
Eu vivi a enchente de 2024 aqui em Eldorado do Sul. Vi muita gente prometer muita coisa naqueles dias. E aprendi uma lição que nenhum livro de administração me ensinou tão bem:
Quem cumpriu, a gente lembra. Quem só falou, a gente também lembra.
Na minha opinião, a confiança num candidato não se mede pelo tamanho da promessa. Mede-se por três perguntas simples:
- O que dependia só dele, ele cumpriu? Aqui, a resposta é não. O mandato único e o fim do sigilo estavam nas mãos do presidente.
- As promessas novas são repetição das velhas? Em pelo menos três temas, sim.
- As entregas vieram no tempo certo ou no tempo da urna? Algumas das mais vistosas chegaram justamente agora.
Por isso, a minha posição é clara: as novas promessas merecem desconfiança proporcional às antigas que ficaram no caminho. Não é ódio, não é torcida. É contabilidade básica. Quem atrasou o pagamento passado não ganha crédito novo só porque prometeu com mais força.
O que dizem os defensores do governo
Todo bom debate ouve o outro lado, e eu faço questão.
Os apoiadores de Lula argumentam que várias pendências travaram no Congresso, e não no Planalto. Lembram que o governo enfrentou um Legislativo majoritariamente de oposição. E apontam que, pelo recorte do g1, mais de 70% dos compromissos foram cumpridos integralmente, um índice alto para qualquer governo.
É um argumento legítimo, e você deve pesar. Mas ele não explica as promessas que não dependiam de Congresso nenhum. E essa é justamente a parte da conta que eu não consigo fechar.
Para levar para casa
No dia 25, ninguém vai votar num plano de governo. Vai votar numa pessoa. E a melhor previsão do que uma pessoa vai fazer ainda é o que ela já fez.
E você, vai renovar o crédito?
Decidir também é cobrar
Escolher bem é olhar para o que já foi feito, e não só para o que se promete. O Poder da Decisão fala de escolhas conscientes e alinhadas a valores, sem embalo e sem pressa.
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O Sul fecha com Flávio: Largo Glênio Peres vira trincheira verde e amarela Os governadores do Sul no mesmo palco, uma bandeira resgatada da lama e o Hino Rio-Grandense. Paulista pichada: manifestação ou vandalismo? O que o ato pró-Lula revela antes do dia 25. A manifestação convence. O vandalismo intimida.Fontes. Balanço do projeto Promessas dos Políticos, do g1, com corte em 30/6/2026, reproduzido por Em Dia ES (22/7/2026) e Revista Coité: 26 de 36 promessas cumpridas, 4 parcialmente e 6 não cumpridas; entregas do governo. Vermelho: a leitura de “ao menos 80%” (4/8/2026). Levantamento da Folha de S.Paulo, reproduzido pela Gazeta do Povo: 28% de 103 promessas na metade do mandato (19/1/2025). Gazeta do Povo: promessas não cumpridas, mandato único e sigilo da agenda da primeira-dama (17/2/2026). Gazeta do Povo: sigilo em telegramas do Itamaraty. Pleno News: plano de governo de Lula para 2026. Agência Brasil: propostas de Lula e Flávio para a segurança pública, incluindo os R$ 10 bilhões do FIIS (9/10/2026). TV Senado: aprovação do fim da 6×1 por 75 votos a 1, em dois turnos (14/10/2026). Brasil de Fato: autoria e tramitação da PEC 221/2019 (14/10/2026). Gazeta da Amazônia: PEC da Segurança aprovada na CCJ do Senado (14/10/2026). Ilustração de abertura produzida pela Rede Bolha com inteligência artificial; a figura é uma caricatura e ilustra a opinião do autor, não registra cena ocorrida.
Aviso. Este texto é um artigo de opinião e expressa a visão do autor, que declara ser presidente do Republicanos em Eldorado do Sul. As informações factuais seguem as fontes citadas acima e serão atualizadas se surgirem dados novos.
