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Economia · Opinião

O dia em que a bolsa puxou o freio de mão

Acordou com o país mais caro? Não foi impressão.

A reeleição de Lula e a falta de sinais fiscais derrubaram o mercado, fizeram o dólar disparar e acenderam o alerta para o bolso dos brasileiros.

Por Adm. Romário Cruz · Jornalista MTb 0021682/RS ·
Infográfico “O dia em que a bolsa puxou o freio de mão”. No alto, o texto: a reeleição de Lula e a falta de sinais fiscais derrubaram o mercado, fizeram o dólar disparar e acenderam o alerta para o bolso dos brasileiros; ao lado, a ilustração de Lula sorrindo diante da bandeira do Brasil e o quadro “Resultado da eleição (2º turno)”: Lula 51,79%, Flávio Bolsonaro 48,21%. À direita, um homem com a mão na cabeça diante de uma tela com o gráfico despencando e o aviso “Circuit breaker: negociações suspensas por 30 minutos”, e o painel: Ibovespa −13,88%, 176.608 pontos; dólar R$ 5,40 (+8,21%); risco-país (CDS 5 anos) +26%, maior nível desde junho de 2025. Abaixo, quatro quadros. “No seu dia a dia — dólar mais caro significa”: pão (trigo importado), remédios, celular, peças de carro e passagens. “Quem ganhou e quem perdeu na bolsa”: subiram as exportadoras Suzano, Embraer e Vale; caíram as de consumo e crédito Magazine Luiza, Hapvida e C&A. “O que pesa no horizonte”: Selic ainda alta (entre 12,25% e 13,5% em 2027), dólar em patamar elevado, PIB praticamente parado, crédito caro e mais inadimplência (84 milhões de brasileiros). “Congresso mais conservador”: PL com 121 deputados (+22) e 19 senadores (deve chegar a 28), Republicanos com 41 deputados; maioria conservadora no Congresso a partir de 2027. No rodapé, “E para o seu bolso? Ajuste de hoje para a tranquilidade de amanhã”: quite dívidas caras primeiro, mantenha uma reserva de emergência, evite decisões de investimento no pânico. E “O que fica? Quatro anos passam rápido. A pergunta é: o que você vai ter construído quando eles acabarem?”.
Circuit breaker, dólar a R$ 5,40 e risco-país no maior nível desde junho de 2025: a segunda-feira inteira num quadro só. Arte: Rede Bolha, produzida com inteligência artificial. As figuras são ilustrações; os números seguem as fontes ao fim da matéria. Abrir o infográfico em tamanho cheio →

Você acordou nesta segunda-feira com a sensação de que o Brasil ficou mais caro da noite pro dia?

Pois não foi impressão. Eu, virginiano que sou, passei a manhã conferindo o celular de cinco em cinco minutos. Igual quem confere o nível do rio em véspera de enchente. E a previsão não era boa.

No domingo (25), Lula foi reeleito para o quarto mandato, com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Foi uma virada: no primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio tinha saído na frente, com 47,03% contra 45,16%. Pela primeira vez na história, quem terminou o primeiro turno em segundo lugar levou a Presidência.

Faça a conta comigo. Se o mandato for até o fim, o PT terá governado o Brasil por mais de 21 dos 28 anos entre 2003 e 2030. É tempo demais para um país que segue reclamando dos mesmos problemas.

Quero deixar uma coisa clara logo de cara: eleição se respeita. A urna falou, e não é com choro nem com teoria da conspiração que a gente vira esse jogo. Mas respeitar o resultado não significa aplaudir o que vem pela frente. E o que vem pela frente, o mercado avisou na primeira hora da segunda-feira.

Segunda-feira de circuit breaker

O freio de mão foi puxado às 10h05. A B3 acionou o circuit breaker, aquele botão de pânico que trava os negócios por 30 minutos quando a queda passa de 10%. Não acontecia desde a pandemia, em 2020.

Na volta, o Ibovespa chegou a cair quase 17%. Fechou o dia com tombo de 13,88%, aos 176.608 pontos. Na sexta-feira, estava em 205 mil. Foi o pior dia da bolsa em seis anos.

O dólar, que tinha fechado a sexta a R$ 4,99, terminou a segunda a R$ 5,40, alta de 8,21%. Durante o pregão, chegou a encostar em R$ 5,60. O risco-país, medido pelo CDS de cinco anos, saltou 26% e voltou ao maior nível desde junho de 2025.

Ibovespa
−13,88%

176.608 pontos. Pior dia em seis anos

Dólar
R$ 5,40

+8,21%. Encostou em R$ 5,60

Risco-país
+26%

CDS de 5 anos, maior nível desde jun/2025

Agora vamos traduzir isso pra mesa do almoço de domingo.

Dólar a R$ 5,40 não é número de economista. É o pãozinho, porque o trigo é importado. É o remédio, o celular, a peça do carro, a passagem de avião.

Repare também em quem ganhou e quem perdeu. Só oito ações do Ibovespa fecharam em alta, quase todas de exportadoras como Suzano, Embraer e Vale, que faturam em dólar. Do outro lado, empresas que vivem do consumo e do crédito do brasileiro comum, como Magazine Luiza, Hapvida e C&A, perderam perto da metade do valor num único dia.

Por que tanto susto? No discurso da vitória, Lula não disse uma palavra sobre ajuste das contas públicas. O mercado leu o recado: mais quatro anos gastando mais do que arrecada. E quando o governo gasta demais, quem paga a conta somos nós, no juro alto, no dólar caro e na inflação do carrinho do supermercado.

E daqui pra frente?

Um aviso honesto antes: o Boletim Focus divulgado nesta segunda foi coletado antes do segundo turno. Ele previa Selic de 13,25% no fim de 2026, 11,75% no fim de 2027 e dólar a R$ 5,05 em dezembro. Esses números já nasceram velhos.

As revisões que começaram a sair hoje apontam outro caminho. Analistas ouvidos pela imprensa já falam em Selic entre 12,25% e 13% no fim de 2027, se não vier ajuste fiscal. A gestora ASA projeta Selic de 13,5% no fim deste ano, 13% no fim do ano que vem e PIB praticamente parado. O BTG Pactual estima juro real de longo prazo acima de 8% e cortes da Selic travados. E o JP Morgan rebaixou a recomendação para o real e para os títulos brasileiros.

Selic no fim de 2027: antes e depois da urna
Quem projetaSelic no fim de 2027
Boletim Focus (coletado antes do 2º turno)11,75%
Analistas, sem ajuste fiscalentre 12,25% e 13%
Gestora ASA13%, com PIB praticamente parado

Em português de varanda: o crédito vai continuar caro. Financiar a casa, o carro, o capital de giro da pequena empresa. Quem está pendurado no cartão sente primeiro, e o Brasil já tinha quase 84 milhões de inadimplentes em agosto, segundo a Serasa.

Para os próximos meses, o termômetro é um só: quem vai sentar na cadeira da Fazenda e qual será o plano para as contas públicas. Se vier um nome técnico, com meta crível, o mercado devolve parte do susto. Se vier mais do mesmo, o dólar tende a ficar alto, os juros não caem como poderiam, e 2027 começa com o pé no freio.

A direita perdeu o Planalto, não o país

Agora deixa eu baixar a voz e falar a verdade que precisa ser dita.

O PL elegeu a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, 22 a mais que em 2022. No Senado, foram 19 senadores eleitos, o maior número de vitórias de um único partido na Casa desde 1988, e a bancada deve chegar a 28 das 81 cadeiras. O Republicanos, partido que presido aqui em Eldorado do Sul, elegeu 41 deputados. O Congresso que toma posse em fevereiro de 2027 terá maioria conservadora.

Isso tem peso. É o Congresso que aprova orçamento, que vota reforma, que segura gasto e que sabe dizer não. É ali que mora o contrapeso.

Esta semana, escrevi a um amigo que me mandou mensagem de fora do Brasil: vamos resistir e, no fim, obter a vitória. Mas resistir não é xingar no grupo do WhatsApp. É cobrar o deputado que você elegeu, acompanhar votação, organizar a base no município, no bairro, na igreja, no CTG. Quem viveu a enchente de 2024 aqui em Eldorado sabe: a água não espera ninguém se organizar. A política também não.

E pro seu bolso, nesse meio-tempo?

O de sempre, com mais disciplina.

  1. Dívida cara se paga primeiro.
  2. Reserva de emergência se protege.
  3. Decisão de investimento não se toma no dia do pânico.

Quatro anos passam rápido. A pergunta que fica é:

O que você vai ter construído quando eles acabarem?

Adm. Romário Cruz é administrador, jornalista e escritor. Este é um texto de opinião e reflete a visão do autor.

Quatro anos passam. Comece agora.

O que você vai ter construído não depende de quem está no Planalto. Amanhã é Outro Agora é um convite a parar de adiar a vida e agir no presente — sobre decisão, propósito e recomeço.

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Aviso. Este texto é uma opinião e não é recomendação de investimento. Tem finalidade jornalística e educacional, não constitui análise ou consultoria de investimento e não indica ativos, produtos ou instituições financeiras. Empresas citadas aparecem apenas como registro do pregão. Para orientação sobre onde investir, procure um profissional autorizado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).