Prefácio · Roque Bakof
Uma Leitura Necessária
Com formação na área das ciências humanas e especialização em psicanálise, nestes vários anos — mais de duas décadas — de vivências e escuta clínica, atividade terapêutica e mediação de conflitos, o meu olhar aprendeu a perceber o que está por baixo, para além, do que as pessoas dizem — e do que deliberadamente não dizem.
É exatamente por isso que este livro despertou a minha atenção, e entendo que devo recomendar a sua leitura.
O que chama a atenção, e constitui o diferencial desta obra, é que, embora o autor não seja um profissional da área da psicanálise, da psicologia ou das terapias comportamentais, este "homem comum" foi capaz de olhar para dentro de si com a coragem que poucos têm — a coragem de nomear o que viu — e depois decidiu escrever e compartilhar as suas percepções, buscando encontrar significados.
Livros escritos por profissionais da área descrevem teses, avaliam perspectivas, mas raramente alcançam e explicam o sofrimento do sujeito que vivencia esse desafio. Esta é a contribuição que Romário Cruz oferece ao propor esta obra: ele escreve sob a ótica de quem vive o desafio e busca entender os significados.
Certamente, muitos leitores vão se identificar com as palavras e com a forma como Romário expõe os seus sentimentos, bem como com as conclusões que formulou após pesquisar e buscar entender a sua trajetória de vida.
Ao longo de vinte e cinco capítulos, a obra percorre os territórios mais sensíveis da vida masculina: a máscara que o homem usa para parecer forte; o silêncio que acumula o que não foi dito, até que o corpo grite; as reações, os sentimentos — medo, vergonha, solidão, impotência.
Com a minha formação psicanalítica, reconheço aqui conceitos que a psicologia levou décadas construindo — mas expressos com uma clareza que os manuais técnicos têm dificuldade de traduzir para o leitor comum.
O texto propõe a análise da raiva como emoção secundária, faz a distinção entre culpa e vergonha — uma que motiva a correção, outra que paralisa — e estas são oportunas contribuições das reflexões que a obra propõe. O capítulo sobre a herança paterna toca a ferida mais funda e mais universal: o homem que não sabe de onde vêm as suas reações está condenado a repeti-las.
Do ponto de vista das políticas públicas, obras como esta têm importante papel, para além dos atendimentos formais, pois, de uma forma despretensiosa, alcançam quem, por vezes, não seria alcançado. Alcançam o homem que ainda não está pronto para admitir que precisa de ajuda.
Um livro não muda uma cultura. Mas pode ser o começo da rachadura por onde a luz entra. Pode ser um despertar.
Há uma passagem neste livro que me fez refletir: Romário Cruz descreve o homem que chega em casa depois de um dia longo e simplesmente não tem mais nada para dar. Sabiamente, interpreta que isso não é fraqueza de caráter. É o resultado inevitável de dar sem receber, de se esforçar sem descansar, de ser forte para todos sem ter um lugar onde ser fraco. Detive-me nessa frase. Não porque seja nova, mas porque raramente ela é dita com essa profundidade e com essa ausência de julgamento, num texto destinado ao homem comum.
Essa é uma oportuna contribuição deste livro: ele convida o leitor a uma reflexão, estimulando-o a perceber que passou décadas invisível até para si mesmo — esta é uma experiência oportuna e transformadora.
Este livro é daquelas obras que merecem ser lidas e recomendadas a amigos e familiares, pois é um oportuno despertar.
— Roque Bakof
Filósofo, psicanalista e escritor
Homem, Você Não É Ridículo
Vinte e cinco capítulos que Roque Bakof recomenda
Livro físico com e-book incluso e frete grátis, ou e-book avulso — de homem para homem, sem discurso pronto.
Conhecer o livro completo