Saúde Emocional Masculina
O silêncio que mata: por que nós, homens, morremos antes — e quase ninguém toca no assunto?
Você já subiu numa balança e ela te olhou de volta com cara de deboche?
Pois eu subi semana passada. Ela marcou 89 quilos, e eu — virginiano que sou — ainda conferi duas vezes. Vai que era erro de calibragem, né? Não era. Era o churrasco de domingo cobrando os juros.
Aí eu ri, desci da balança e pensei: “depois eu vejo isso”. E foi nesse “depois eu vejo isso” que caiu a ficha. Porque essa frasezinha inocente, dita por milhões de homens brasileiros todos os dias, está nos custando algo muito mais caro do que uns quilinhos a mais.
Está nos custando anos de vida. E eu tenho os números para provar.
Os dados que deveriam estar em todos os jornais
O IBGE divulgou, no fim de 2025, as Tábuas de Mortalidade de 2024. O Brasil comemorou, e com razão: a expectativa de vida chegou a 76,6 anos, a maior da história. Saiu em todo lugar.
Mas dentro dessa média mora um detalhe que quase nenhuma manchete destacou: as mulheres vivem, em média, 79,9 anos. Nós, homens, 73,3.
São 6,6 anos de diferença. Quase sete anos.
E olha, eu sou administrador. Passei a vida fazendo conta. Mas essa aqui não precisa de calculadora: pense no que cabe em sete anos. O casamento de um filho. O nascimento de um neto. Sete Natais na mesa da família. Sete aniversários da esposa — e vamos combinar, esquecer um já dá problema; imagine perder sete.
É isso que, estatisticamente, o homem brasileiro está deixando na mesa.
E não é só lá no fim da vida. O mesmo estudo mostra que um rapaz de 20 anos tem 4,1 vezes mais chance de não completar 25 do que uma moça da mesma idade. O motivo são as chamadas causas externas: homicídios, acidentes de trânsito e suicídios — todas com forte predominância masculina. Aqui o assunto é sério demais para qualquer graça, então vou dizer do jeito mais direto que sei: estamos perdendo nossos meninos cedo demais.
Elas vão ao médico. Nós esperamos a dor gritar
A Pesquisa Nacional de Saúde, do IBGE, mostrou o contraste sem rodeios: 82% das mulheres visitaram um médico no período pesquisado. Entre os homens, só 69%.
O Instituto Lado a Lado pela Vida, que lidera o Novembro Azul, foi mais fundo ainda: 62% dos homens brasileiros só procuram o médico quando o sintoma fica insuportável. Na América Latina inteira, são 7 em cada 10.
E tem um dado que descreve a minha casa — e aposto que a sua também. Segundo o Ministério da Saúde, 7 em cada 10 homens só chegam ao consultório por insistência da companheira ou dos filhos.
Eu que o diga. Se dependesse só de mim, minha carteirinha do plano ainda estaria com cheiro de nova. É a Silvana quem olha para mim com aquele olhar que dispensa legenda e diz: “Romário, marca o médico”. E eu, homem sábio depois de anos de casamento, aprendi que discutir com esposa que está certa é a forma mais rápida de perder duas vezes.
Ou seja: quando o homem brasileiro finalmente se cuida, geralmente é porque uma mulher que o ama não desistiu dele.
O problema é o resultado dessa demora. Excluídas as internações por parto, os homens são maioria nas internações do SUS — e morrem mais durante elas, especialmente por doenças do coração. A gente chega tarde. Chega quando a doença já entrou, trocou os móveis de lugar e se instalou.
É como aquele barulhinho no motor do carro. Você ignora, aumenta o rádio, e um belo dia o carro te deixa na estrada. Com o corpo é igual — só que corpo não tem mecânico de esquina que resolve tudo com uma peça nova.
E a saúde mental? Aí o silêncio é ainda maior
A Organização Mundial da Saúde reconhece: as expectativas sociais sobre o homem — ser o provedor, aguentar firme, não demonstrar emoção, não pedir ajuda — estão diretamente ligadas às maiores taxas de suicídio, vícios e doenças crônicas na população masculina.
Desde meninos, muitos de nós aprendemos que fraqueza não se mostra. “Engole o choro.” “Isso passa.” “Homem aguenta.” Essas frases, repetidas por gerações, viraram uma armadura — e a armadura virou prisão. O homem que não pode fraquejar também não pode pedir ajuda. E quem não pede ajuda adoece calado.
Eu vi isso de perto em 2024, quando a enchente levou boa parte da minha Eldorado do Sul. Vi homens fortes, daqueles de mão calejada, perderem tudo e não conseguirem falar sobre o que sentiam. Ajudavam todo mundo, carregavam móveis, reconstruíam casas — mas por dentro estavam afundando também, e ninguém via. Porque ninguém perguntava. E porque eles não diziam.
A negligência de quem deveria informar
Agora chegamos ao ponto que precisa ser dito com coragem: esses dados existem. Estão publicados. São oficiais. Mas quem os conhece?
Deixa eu te fazer uma pergunta. O Brasil é o único país da América Latina com uma política pública específica para a saúde masculina: a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem, a PNAISH, criada em 2009. Você já tinha ouvido falar dela?
Pois é. Eu imaginava. Dezessete anos de existência e a imensa maioria dos homens brasileiros nunca soube que ela existe. É como ter um presente guardado no armário há dezessete anos — embrulhado, com laço e tudo — e ninguém avisou que era seu.
Compare com outras campanhas de saúde pública, divulgadas o ano inteiro — e que bom que são, porque salvam vidas. A saúde do homem, por sua vez, ganha um mês azul em novembro, algumas reportagens, e depois volta ao silêncio. A sobremortalidade masculina, documentada pelo IBGE desde os anos 1980, raramente vira pauta de debate, política de comunicação permanente ou prioridade de gestão.
E aqui quero ser bem claro, porque esse assunto merece honestidade: não se trata de disputar atenção com ninguém. Cuidar da saúde da mulher é fundamental, e ninguém sério discute isso. A questão é outra. Por que os dados sobre a morte precoce dos homens não recebem o mesmo esforço de divulgação? Quando um grupo morre quase sete anos antes e o poder público trata isso como nota de rodapé, existe uma omissão que precisa de nome.
Silêncio na gestão pública, silêncio na mídia, silêncio dentro de casa. Três silêncios que, somados, custam vidas.
O que cada homem pode fazer hoje
Mudar política pública é necessário, mas é lento — mais lento que fila de banco em véspera de feriado. A sua mudança, por outro lado, pode começar hoje:
- Marque a consulta antes da dor. Check-up anual não é frescura, é gestão da própria vida. Você faz revisão do carro por prevenção; seu corpo merece, no mínimo, o mesmo carinho que a sua caminhonete.
- Fale. Com a esposa, com um amigo de confiança, com um irmão, com um profissional. Peso dividido fica mais leve — isso vale para mudança de casa e vale para o coração. Guardar tudo não é força. É risco.
- Seja exemplo. Seu filho aprende mais com o que você faz do que com o que você diz. Um pai que se cuida ensina o filho a viver mais.
- Cobre informação. Pergunte no posto de saúde da sua cidade o que existe para a saúde do homem. A PNAISH é lei. E serviço que existe no papel só sai do papel quando o cidadão cobra.
Uma palavra final
Os números do IBGE não são apenas estatísticas. São pais, maridos, filhos e amigos que partiram antes da hora — muitos por doenças que um exame simples teria pegado a tempo.
Eu tenho 53 anos, 1,65 de altura e, como confessei lá no início, 89 quilos que insistem em me acompanhar. Não sou exemplo de atleta — longe disso. Mas aprendi uma coisa que quero deixar com você: se cuidar não te faz menos homem. Te faz presente. Presente no casamento do filho, no colo do neto, na mesa do próximo Natal.
Você não é ridículo por se cuidar. Ridículo é o silêncio que nos ensinaram a chamar de força.
Sete anos de vida estão em jogo. A pergunta que fica é simples: o que você vai fazer com eles?
Fontes: IBGE — Tábuas de Mortalidade 2024; IBGE — Pesquisa Nacional de Saúde; Ministério da Saúde — PNAISH (Portaria nº 1.944/2009); Instituto Lado a Lado pela Vida — pesquisa Novembro Azul; OMS/OPAS — relatório “Masculinidades e saúde na região das Américas”.
Romário Cruz